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A eliminação precoce que acordou o Brasil pra realidade

07/07/2018
Araraquara / SP
Camila Liberato
Foto: Camila Liberato/arquivo pessoal

Por Camila Liberato (*)

Grande parte dos brasileiros que se dizem patriotas e entendedores de futebol - pra mim, chamados de "baba ovos" - estão nesse exato momento justificando com as melhores desculpas a eliminação da Seleção Brasileira na Copa. Justificam as atuações do Neymar pela recente lesão, baseiam a derrota na causalidade e infelicidade de uma bola desviada, falam de sorte da Bélgica e desestabilidade emocional que interferiu no resultado final.

Mas como não me encaixo nessa grande maioria não vou ficar defendendo o Brasil, que não me surpreendeu nenhum pouco por ter sido eliminado nessa fase da competição. Ainda acredito que: a bola não entrou por alguma razão; o caráter de atleta influencia dentro de campo, sem alma pode haver o talento individual que for que uma equipe não chega a lugar algum; as maiores chances de gols caem nos pés de jogadores despreparados emocionalmente; um time que olha para um só jogador não pode ser considerado grande; não existe sorte para quem trabalha, acredita e tem objetivo; histórias passadas ou estatísticas não se põem em campo; e, maiores atletas são os que vestem a camisa e dão a vida por ela.

Sim, eu esperava um time menos vaidoso, mais alma e entrega, menos mídia e "mimimi" em comemorações de gols, mais precisão nas finalizações, mais presença de área defensiva e poucos espaços para erros infantis.

Esperava ainda um time que atrás do placar desse a vida no campo a ponto de saírem do jogo com a expressão de que tentou tudo que pode, assumisse mais responsabilidade e jogasse pelo povo brasileiro e não para a mídia sensacionalista e criadora de monstros. Esperava ainda que com o Tite as coisas fossem diferentes e a CBF não tivesse tanta intromissão quanto se acreditava.

As atuações do Brasil trouxeram à tona uma dura realidade a respeito do nosso futebol: deixamos a muito tempo de ser o país do futebol e se tornou um mercado que visa lucro, marketing e fazedor de atletas vaidosos, sem alma e que escolhem time de acordo com o volume do bolso.

Hoje demos adeus à geração do futebol que nos deu nome de Seleção, temida, respeitada e grande. Uma geração que joga como time pequeno, atletas que não sentem o peso da camisa, não tem patriotismo e não entendem que o futebol não é apenas um jogo divertido e lucrativo, mas que mexe com a emoção de uma nação e para um país inteiro para vibrar, torcer e jogar juntos.

A mídia criou Neymar. Ele, o cara de um talento natural e indiscutível, que tinha tudo para ser um dos maiores da história, mas escolheu ser pequeno. Vaidoso demais para chegar a uma Copa do Mundo, a sua segunda, depois de uma lesão, e ficar quietinho, sem fazer barulho ou gestos arrogantes. Ele era o único que podia nos mostrar ser diferente, que a frustração do 7 a 1 foi pela sua ausência em campo, que futebol coletivo sobressai ao individual. Ele foi comparado a Messi e a Cristiano Ronaldo, mesmo sem a Bola de Ouro, e teve uma Seleção muito melhor e com mais história, jogando em sua função - mesmo sendo  palavras da mídia brasileira que o exaltam como se fosse Deus.

Cansei-me de torcer pela Seleção Brasileira, ainda que eu tenha descoberto isso há anos e escolhido insistir mais um pouco por amar e respeitar o grande treinador Tite. Eu ligo o alerta: o futebol brasileiro talvez não tenha solução ou cura, a cada ano ou Copa do Mundo mostra que ele está morrendo. Precisamos salvá-lo, antes que sobreviva apenas de memórias do passado.

* Camila Liberato é atleta de futsal da Tradição/Fundesport

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