HOME / Notícia / Fernanda Emerick, o grande nome do vôlei nacional

Fernanda Emerick, o grande nome do vôlei nacional

05/04/2015
Araraquara / SP
Jonas Bezerra
Foto: Arquivo pessoal

Foram 30 anos de história no esporte. De uma atleta de escola em Araraquara ela passou por grandes clubes e defendeu a Seleção Brasileira em duas Olimpíadas. Sua geração foi responsável pelo início da profissionalização do voleibol.

Grandes nomes do vôlei masculino e feminino de Araraquara fizeram história do esporte no País. Além da equipe masculina do Lupo/Náutico, recentemente equipe da Uniara/AFAV encerrou sua participação na Superliga Feminina 2014/2015, a cidade conta ainda com nomes como o de Letícia Hage que defende Praia Clube, de Uberlândia/MG.

No entanto, em décadas passadas, duas jogadoras da cidade se destacaram e defenderam os principais clubes do país e a própria Seleção Brasileira em campeonatos mundiais, Jogos Pan-Americanos e Olimpíadas. Por coicindência, as duas se chamam Fernanda. Estamos falando de Fernanda Emerick da Silva Rangel e Fernanda Porto Venturini Rezende.

A reportagem de estreia de nosso Portal será com Fernanda Emerick, um dos grandes nomes do vôlei nacional feminino na Década de 80. Sua geração foi fundamental para o crescimento e a profissionalização do esporte no país. Saiba, a seguir, um pouco da história desta grande atleta araraquarense e leia a entrevista concedida com exclusividade ao Portal Esporte & Lazer.

Breve histórico

Ex-ponteira e residindo atualmente em Recife/PE, ela iniciou a carreira jogando pela equipe do Colégio Progresso e Seleção de Araraquara, antiga CCE (hoje Fundesport). Na seleção juvenil do Brasil foi tricampeã sul-americana (1974, 1976 e 1978). Na Seleção principal foi medalha de bronze nos Jogos Pan-Americanos de Porto Rico (1979) numa época que e vôlei começava a dar os seus primeiros passos à profissionalização. Em 1981, no Brasil, foi campeã sul-americana interrompendo uma histórica hegemonia do vôlei peruano. Ainda pela seleção, disputou o campeonato mundial de vôlei na ex-União Soviética (1978), e de duas Olimpíadas: Moscou (1980) e Los Angeles (1984).

Fernanda Emerick é natural de Araraquara e filha de Yolanda e Nelson Monteiro da Silva e irmã de Renato, Nelson, e Renata. Aos 12 anos foi incentivada no esporte pelo seu professor Hélio Sene. Disputou os Jogos da Primavera pelo Colégio Progresso e pelo município os Jogos Regionais e os Abertos do Interior.

O seu primeiro grande clube foi o CA Paulistano, defendendo as equipes infantil, juvenil e chegou ser titular da Adulta. Em 1974, transfere-se para o CA Pirelli e é convocada para a Seleção Brasileira juvenil. Em 1985, volta a defender as cores da equipe carioca Supergasbrás, sagrando-se bicampeã brasileira (1985/1986). Nos dois anos seguintes, disputou o Campeonato Italiano.

Fernanda Emerick escreveu o seu nome na história do vôlei feminino brasileiro, juntamente ao lado de grandes atletas como Regina Villela, Jacqueline Silva, Regina Uchôa, Heloísa Roese, Eliane Costa, Isabel Salgado, Ana Richa, Mônica Caetano, Ida, Sandra Suruagy, Vera Mossa, Luiza Machado entre outras.

 

ENTREVISTA EXCLUSIVA

Esporte e Lazer – Conte um pouco sobre sua passagem no vôlei.

Fernanda - Foi maravilhosa! Estive por mais de 30 anos numa quadra de vôlei, 10 dos quais participando das seleções brasileiras (juvenil e adulta). Muitas viagens, muitos amigos, mas também muito treino, trabalho duro; dedicação total e abdicação das coisas normais de qualquer adolescente...

Onde tudo começou?

Fernanda - Comecei no Colégio Progresso e logo me apaixonei graças ao empenho e dedicação do professor Hélio Sene. Ele era um entusiasta da modalidade e não poupava esforços para que nosso time pudesse evoluir. Lembro-me que, às vezes, nos levava para jogos amistosos em outras cidades no seu próprio carro. Depois passei a participar também da seleção de Araraquara disputando os Jogos Regionais. Viajávamos de trem, alojávamos em escolas. Nos deslocávamos para os Jogos na boleia de um caminhão (risos...). Tudo muito amador, mas na época era uma festa!

E depois?

Fernanda – Daí fui convidada para treinar no Clube Atlético Paulistano, em São Paulo. Meus pais permitiram e durante seis meses viajava três vezes por semana. Assistia às aulas no Progresso pela manhã, viajava quatro horas para ir treinar em São Paulo. Os treinos aconteciam das 18 às 22h. Retornava no mesmo dia. As estradas não eram duplas! Mas, como não me permitiam ir sozinha, sempre havia alguém fazendo essa “via crucis” comigo: ora minha mãe, ora tia Alice e até o Paulo Schwartzmann que era araraquarense e já jogava há alguns anos no Paulistano. Nos finais de semana as viagens eram para participar de jogos.

Foi o ano inteiro assim?

Fernanda – Foi! Já, no ano seguinte me mudei de vez para São Paulo. Fui para a casa de uma tia e o clube me deu uma bolsa de estudos no Mackenzie. Ali começava mais intensamente minha vida esportiva. Participei de campeonatos nas categorias infantil, juvenil e adulto, municipais e estaduais, seleções Paulista e a primeira convocação para uma seleção Brasileira.

Daí começou sua vida profissional?

Fernanda - Após 6 anos fui contratada pela Pirelli. O vôlei começava a se “profissionalizar”. Seguiam-se campeonatos Brasileiros, Sul-Americanos, Pan-Americanos e a primeira participação do vôlei feminino em uma Olimpíadas foi em Moscou, em 1980.

Quando foi jogar na Supergasbrás?

Fernanda - Naquela época a cada final de temporada surgiam convites para novas equipes, mas o ótimo ambiente na Pirelli e o fato de ainda estar cursando uma Universidade em São Paulo (me formei em Artes Plásticas na FAAP) me faziam ficar em Santo André. Após os Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1984, me transferi para o Rio de Janeiro, para a equipe da Supergasbrás. Começava um novo tempo: uma equipe onde só existia o vôlei feminino e fomos contratadas para treinamento em tempo integral – de 6 a 8 horas por dia. Davam-nos ótimas condições, mas as cobranças e nossa responsabilidade eram cada vez maiores.

Continuava na seleção?

Fernanda - Apesar da ótima fase pessoal e do time ser vitorioso, houve renovação na seleção brasileira, na comissão técnica e algumas atletas, para começar um novo ciclo olímpico. Daí, não fui mais convocada. Permaneci três anos na Supergasbrás e depois parti para a realização de mais um sonho: jogar no vôlei italiano que naquela época tinha o campeonato mais disputado do mundo. Em 1990, após duas temporadas na Itália, com 32 anos, resolvi voltar ao Brasil para me casar encerrando minha carreira esportiva.

Foi quando mudou-se para Recife?

Fernanda - Sim! Como meu marido é pernambucano, vim morar em Recife e ainda disputei com a AABB alguns campeonatos brasileiros. Nessa época começava também no Brasil o vôlei de praia e por dois anos participei do Circuito Banco do Brasil. Em 1994, grávida da minha única filha achei que era o momento de me retirar de vez das quadras.

Como você o vôlei de sua época com a vôlei atual

Fernanda - Totalmente diferente, tanto dentro como fora da quadra. No início não havia público, só familiares assistiam aos jogos. Patrocínio, nem pensar! Era pai-trocínio. Depois, vieram apoios para transporte e alimentação. Certa vez, a seleção brasileira ficou hospedada em um hotel muito simples na Av. São João, em São Paulo. Recebíamos um apoio para alimentação. O apoio fazia com que tínhamos que optar junto ao prato feito se consumir suco ou sobremesa, pois para tudo não havia grana.

EL – Quando começou ocorrer a mudança?

Fernanda - A mudança começou quando o Nuzman (hoje no COB) chegou à presidência da Confederação Brasileira de Volleyball, trazendo um novo modelo de gestão visando melhorias nas condições de treinamento. Em 1977, alugaram uma casa em Belo Horizonte e nos colocaram para viver juntos durante oito meses. Foi a primeira vez que conseguiram concentrar tanta gente e por tão longo período. Éramos 20 atletas mais a comissão técnica vivendo ali, vizinhos a casa do dirigente responsável local por toda essa transformação. Nossos estudos foram transferidos e assim estudávamos pela manhã, treinávamos um pouco ainda antes do almoço, havia hora para descanso, para os deveres de casa e, à noite, muito treino.

EL – E a adaptação?

Fernanda - O começo foi muito difícil, eram muitas regras, muita disciplina e muitos treinos... Ninguém estava acostumado. Foi uma fase de transformação também para a comissão técnica... Era a primeira vez que tinham condição de aplicar métodos de treinamentos, de preparação física com acompanhamentos quase que diários de nutricionista, fisioterapeuta, exames médicos, testes de aptidão... Essas coisas comuns hoje em dia.

A Seleção Brasileira?

Fernanda - O Brasil realizou neste ano o 1º Campeonato Mundial Juvenil e conseguimos ficar em 4º lugar.  Um grande feito, mas foi em 1981 com o título do Campeonato Sul-Americano Adulto, realizado em Santo André, que efetivamente o vôlei deu um salto. Foi a primeira vez que a imprensa fez uma cobertura mais abrangente, jornais, rádio e TV nos acompanharam durante toda a competição e a final foi transmitida ao vivo pela Rede Globo com o ginásio superlotado, com um público muito vibrante, mas ainda pouco acostumado à assistir aos jogos de vôlei.

Como era o vôlei nesta época?

Fernanda - Dentro da quadra éramos menos fortes fisicamente, éramos mais baixas e mais lentas do que hoje; quase não haviam jogadas, ainda não atacávamos bola do fundo, havia vantagem, não tinha líbero entre outras mudanças de regras. Fora das linhas a organização hoje não permite ninguém no espaço da quadra, até a cerimônia de premiação foi aprimorada. A imprensa também evoluiu, aprenderam a regras, a melhor maneira de filmar e transmitir as jogadas, de fazer replay...

Que contribuição a sua geração deu para o vôlei brasileiro?

Fernanda - O processo de mudanças iniciado na minha geração e a evolução que tivemos em quadra apoiados pela exposição que conseguimos na mídia cativaram torcedores e atraíram patrocinadores. Começaram os intercâmbios internacionais, surgiram os clubes/empresa e melhores contratos. A Rainha, marca de material esportivo se interessou em fabricar produtos específicos para o vôlei, coisa que até então não existia no Brasil e nós fomos cobaias nesse processo ajudando e testando esses materiais. Minha geração não conquistou medalhas olímpicas, mas fez a difícil transição da era amadora para a profissional abrindo caminho para o sucesso que o vôlei tem hoje.

Como está sua vida profissional e familiar?

Fernanda - Trabalho com produção artística junto a Bubuska Valença, meu marido que é músico. Tenho uma filha, Carolina, que também viveu experiências no vôlei participando de dois campeonatos brasileiros e agora se dedica a faculdade de odontologia. Hoje, sigo por outros caminhos, mas ainda trago comigo as amizades os valores e experiências que vivi no esporte.

 

 

Comentário(s) - 6

Giovani Peroni
Publicado em: 07/07/2015 - 07:56:42

Parabéns Jonas!

A maior comprovação de que Araraquara sempre foi um celeiro do vôlei. Boas lembranças que devem ser eternizadas com o forte intuito do respeito aos abnegados do passado.

Ligia Carvalho de Oliveira Mascioli
Publicado em: 11/04/2015 - 21:16:51

Saudades da Fernanda! Querida amiga!!! Com amor e dedicação ao voley sempre defendia com muita garra o time que participava. E seu reconhecimento ao Hélio Sene foi uma prova de que apesar do sucesso, dos titulos e das medalhas continua sendo a pessoa simples e simpática que conhecemos e convivemos na infância e no Colegio Progresso.

Jonas Bezerra dos Anjos
Publicado em: 10/04/2015 - 11:01:06

Para nós do Esporte e Lazer foi uma alegria e um orgulho poder fazer a matéria com Fernanda. Eu, em particular, acompanhei toda sua carreira no vôlei. O que fizemos foi simplesmente mostrar ao nosso eleitor, a maioria jovem, um pouco da história dessa atleta que tão bem representou nossa cidade. Obrigado, Fernanda!

Mais Comentários